Quem educar? Sobre o que educar? Onde educar?

Educação superior na convergência entre inteligência artificial, transição demográfica e mudança geracional

A educação superior enfrenta uma reconfiguração estrutural decorrente de três dinâmicas convergentes: a expansão da inteligência artificial (IA) e da hiperconectividade digital, o declínio demográfico em múltiplas regiões e a transformação nas expectativas culturais e profissionais das novas gerações.

Este texto reflete sobre essas forças que obrigam a repensar três perguntas estratégicas fundamentais — quem educar? sobre o que educar? onde educar? — não como questões pedagógicas isoladas, mas como eixos de redesenho institucional.

Com base em evidências de organismos internacionais e literatura acadêmica recente, argumenta-se que a sustentabilidade e a relevância da educação superior dependerão de sua capacidade de adotar um modelo intergeracional, transversal em alfabetização digital e híbrido em sua arquitetura formativa.

Da expansão massiva à reconfiguração estrutural

Nas últimas décadas, a educação superior experimentou uma expansão sem precedentes. Segundo a UNESCO (2022), as matrículas globais passaram de aproximadamente 100 milhões de estudantes no ano 2000 para mais de 235 milhões em 2020. No entanto, essa expansão ocorreu sob pressupostos demográficos e tecnológicos que hoje estão sendo profundamente alterados.

O avanço da inteligência artificial está modificando as dinâmicas de trabalho, aprendizagem e produção de conhecimento. A UNESCO (2023) adverte que a IA não impacta apenas ferramentas pedagógicas, mas a própria arquitetura do sistema educacional, incluindo avaliação, desenho curricular e governança institucional.

Paralelamente, a Divisão de População das Nações Unidas indica que a taxa global de fertilidade caiu para 2,3 filhos por mulher em 2021, com projeções abaixo do nível de reposição em diversas regiões (United Nations, 2022). Esse fenômeno afeta diretamente o tamanho das coortes em idade universitária, tradicionalmente centrais nos sistemas de ensino superior.

Além disso, as próprias gerações envolvidas nos processos formativos apresentam transformações significativas. Estudos sobre a Geração Z mostram mudanças nas expectativas em relação à aprendizagem e ao trabalho. Twenge (2017) documenta alterações nos padrões de socialização digital e nas prioridades profissionais, enquanto Gallup (2024) evidencia percepções ambivalentes sobre o impacto da IA na educação e no emprego.

A transformação geracional não se limita a preferências pedagógicas; ela redefine a relação entre educação e projeto de vida. Instituições que não integrem flexibilidade, modularidade, aprendizagem aplicada e acompanhamento em transições profissionais correm o risco de perder relevância diante de estudantes que valorizam tanto a empregabilidade quanto o sentido e a coerência ética do conhecimento adquirido.

Nesse contexto, a educação superior não enfrenta uma crise conjuntural, mas uma redefinição sistêmica.

Quem educar? A transição demográfica e a virada para a aprendizagem ao longo da vida

A transição demográfica representa um dos fatores mais estruturais da mudança. O relatório World Population Prospects (United Nations, 2022) confirma uma desaceleração sustentada do crescimento da população jovem na América Latina, Europa e Ásia Oriental.

Encoura (2023) projeta que, nos Estados Unidos, o número de graduados do ensino médio diminuirá significativamente na próxima década — fenômeno também observado em outros países com taxas de fertilidade reduzidas.

Esse cenário transforma a lógica institucional:

  • Menor número de estudantes tradicionais
  • Maior competição interinstitucional
  • Necessidade de diversificar públicos

A OECD (2019) sustenta que a aprendizagem ao longo da vida será fundamental para manter a produtividade em sociedades envelhecidas. Consequentemente, a educação superior deve ampliar seu foco para:

  • Profissionais em reconversão diante da automação
  • Adultos que necessitam atualização tecnológica contínua
  • Trajetórias flexíveis que integrem trabalho e formação

O estudante tradicional deixa de ser o centro exclusivo do modelo. A sustentabilidade institucional dependerá de sua capacidade de operar como plataforma de atualização permanente.

Sobre o que educar? IA, automação e competências humanas ampliadas

A inteligência artificial redefine as competências profissionais demandadas. O Future of Jobs Report do Fórum Econômico Mundial (2023) identifica alfabetização tecnológica, análise de dados e pensamento analítico como habilidades em crescimento acelerado.

Brynjolfsson e McAfee (2014) argumentam que a automação transforma não apenas tarefas manuais, mas também cognitivas, exigindo a reconfiguração dos perfis profissionais. A UNESCO (2023) enfatiza que a integração responsável da IA na educação deve incluir marcos éticos, transparência algorítmica e desenvolvimento do pensamento crítico.

Nesse contexto, a formação transversal em:

  • Dados
  • IA aplicada
  • Automação
  • Ética digital

torna-se uma condição básica, e não opcional.

Ao mesmo tempo, a literatura converge ao afirmar que a automação não elimina o valor humano; ela o desloca para competências superiores. A tecnologia complementa tarefas que exigem julgamento, criatividade e habilidades sociais.

A educação superior deve formar profissionais híbridos: tecnologicamente competentes e sólidos em capacidades cognitivas avançadas.

Onde educar? Hiperconectividade e expansão do ecossistema formativo

A hiperconectividade redefine estruturalmente o espaço educacional. Castells (2010) descreve a “sociedade em rede” como um sistema no qual a produção, circulação e validação do conhecimento se articulam por meio de infraestruturas digitais globais.

A universidade, historicamente organizada como espaço físico centralizado, insere-se agora em uma arquitetura distribuída do saber.

A pandemia de COVID-19 acelerou processos de virtualização, mas não os originou. A digitalização educacional já estava em curso por meio de plataformas abertas de aprendizagem, recursos educacionais digitais e redes profissionais globais.

O modelo emergente caracteriza-se por:

  • Educação híbrida
  • Microcredenciais (OECD, 2021)
  • Avaliação baseada em competências
  • Integração com ambientes produtivos reais

A Geração Z valoriza flexibilidade, propósito e aplicabilidade imediata da aprendizagem (Gallup, 2024). O campus físico não desaparece, mas deixa de ser o único nó do sistema educacional.

Reflexão Final

A convergência entre transição demográfica, automação cognitiva e transformação cultural geracional configura um ambiente estruturalmente distinto daquele que deu origem ao modelo universitário tradicional.

Não estamos diante de variações marginais, mas de uma alteração nos pressupostos fundacionais do sistema: a abundância de população jovem, a estabilidade dos perfis profissionais e a centralidade do campus físico como único espaço legítimo de formação.

O novo cenário é previsível:

Menos jovens.
Mais tecnologia transversal.
Expectativas crescentes de flexibilidade, propósito e aplicabilidade imediata.

Esse contexto redefine a competição na educação superior. Já não se trata apenas de ampliar cobertura, diversificar programas ou fortalecer infraestrutura. Trata-se de repensar a proposta de valor institucional em termos de pertinência, adaptabilidade e capacidade de articulação com um ambiente dinâmico.

Instituições que compreenderem a natureza sistêmica dessa convergência estarão em condições de redesenhar sua arquitetura acadêmica, diversificar seus públicos e consolidar-se como plataformas de aprendizagem ao longo da vida. Aquelas que mantiverem lógicas exclusivamente expansionistas — centradas em volume, presencialidade rígida ou segmentação disciplinar fechada — enfrentarão pressões crescentes de sustentabilidade acadêmica, financeira e reputacional.

Referencias

Autor, D. H. (2015). Why are there still so many jobs? Journal of Economic Perspectives, 29(3), 3–30.
Brynjolfsson, E., & McAfee, A. (2014). The second machine age. W. W. Norton.
Castells, M. (2010). The rise of the network society. Wiley-Blackwell.
Encoura. (2023). Regional impacts of the demographic decline on higher education.
Gallup. (2024). Gen Z and AI in education.
OECD. (2019). Getting skills right: Future-ready adult learning systems.
OECD. (2021). Micro-credentials for lifelong learning and employability.
UNESCO. (2022). Global education monitoring report.
UNESCO. (2023). AI and the future of education: Disruptions, dilemmas and directions.
United Nations. (2022). World population prospects 2022.
World Economic Forum. (2023). Future of jobs report 2023.


PhD. Wilmer Lopez Lopez – Febrero 2026

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